Alarvidades discriminatórias

Joana Amaral Dias, escritora (de banalidades e alarvidades) colocou o post abaixo na sua página de promoção pessoal no facebook. Nas alarvidades que aqui escreve (as banalidades também têm lugar na página, mas ficam sobretudo para os livros) sobre a a nova deputada do LIVRE, Joacine Katar Moreira, há três que não resisto a comentar e que, por isso, sublinhei. O argumento da escritora é que Joacine, devido à sua gaguez, estará sempre em desvantagem no debate parlamentar em relação aos que conseguem uma fala mais fluente. Joana prossegue (boçalmente), dizendo que seria absurdo “colocar um paraplégico a competir com um banal atleta de 100 m barreiras” (palavras para quê?). Confessa ter “dificuldades em acompanhar o fio de raciocínio da JKM”, o que me parece perfeitamente aceitável, dado o défice cognitivo revelado nas alarvidades que escreve. Prossegue, afirmando que é uma “pena o Bloco de Esquerda ter desprezado Jorge Falcato”, esse sim, um deficiente de jeito que cumpre com os buçais requisitos joaninos para ser membro do parlamento. Termina falando-nos da “enorme diferença que há” entre eleger “deputados que sejam portadores de deficiência […] e a exposição, a exploração tipo Circo homem-elefante, dessas mesmas dificuldades ou deficiências”. Já o que Joaninha se esqueceu de referir, foi que parece não ter qualquer problema em exibir o Circo da mulher-burra, capaz de se expor e alarvar tamanhas boçalidades.

O que Joana Amaral Dias parece ter dificuldades em compreender, é que cirurgião cardíaco, atleta ou cantor, não são cargos representativos, pelo que faz todo o sentido que um cego, um paraplégico ou uma pessoa com mutismo total não os exerçam, respetivamente. Porém, o cargo de deputado é representativo de quem os elegeu e achar que há alguém eleito que não é suficientemente bom para o fazer só porque é gago (gaga, no caso) é uma contradição em si mesmo do espírito da democracia representativa. Mas compreendê-lo exige mais que aquilo que nos é dado a ver por Joana Amaral Dias.

Afinal de contas, de que serve ser fluente de fala, se o que nos é dado a ouvir se ouve é apenas um chorrilho de disparates que tem por origem uma acentuada gaguez do pensamento?

Antes de terminar, gostaria de manifestar o maior respeito que possuo por paquidermes e asnos e que não pretendo de forma nenhuma minimizar tão nobre animal, como é o Equus asinus, ao proceder à comparação anterior.

Se está frio é porque não está calor

“Há algo de podre no Reino da Dinamarca!”, disse Shakespeare no início do século XVII, quando teclava Hamlet no seu Macbook (Bom?!, Talvez não tenha sido exatamente assim! Mas isso não interessa para nada!!).

Passados 400 anos, parece que as podridões dinamarquesas foram devidamente atendidas e remediadas, com a Dinamarca a liderar o ranking dos países menos corruptos do mundo.

Há que perdoar a Shakespeare a caducidade da expressão. Porém, se Shakespeare tivesse a capacidade de prever o futuro, poderia ter escrito qualquer coisa como: “Há algo de podre na República dos EUA!” É certo que ainda faltariam quase dois séculos para a fundação da nação e quatro séculos para a eleição de Trump, mas ninguém poderia negar que teria sido uma (pre)visão do caraças, ainda que óbvia, nos nossos dias.

É claro que todos nós já nos habituámos à trumpalhices do presidente dos EUA, mas ainda ontem, Trump, face à onda de frio que se faz sentir em algumas regiões do país a que preside, escreveu o seguinte Tweet:

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A adúltera, o juiz, o advogado e o presidente da República

O Conselho Superior de Magistratura considera que houve infração disciplinar e chumbou o de arquivamento do processo disciplinar contra o juiz Neto Moura. Para os mais esquecidos, Neto Moura é o juiz desembargador do Tribunal da Relação do Porto que, em outubro de 2017, redigiu um acórdão que atenuou a pena aplicada a um homem que agrediu a sua mulher de forma brutal e violenta, pelo facto de esta ter relações extraconjugais, ou, nas palavras do juiz, ser adúltera. No acórdão, Neto Moura sustenta-se na bíblia e no código penal de 1886, para justificar a sua posição (ambos, documentos contemporâneos e fiáveis, que, como bem sabemos, respeitam os Direitos Humanos e, em particular, os Direitos das Mulheres!) Saliente-se que, desde 1974, que o adultério deixou de ser considerado atenuante para crimes conjugais – a culpa é do 25 de Abril, claro. No acórdão (disponível aqui) pode ler-se:

“há sociedades em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte”, e que o adultério da mulher é “um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem”.

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