Estátuas

Há de facto muita ignorância em relação à figura do Pde. António Vieira, recentemente e absurdamente proclamado defensor dos direitos humanos, numa época em que nem sequer se imaginava o que estes poderiam ser. Ficamo-nos pela propaganda do Estado Novo e do que, professores acríticos, nos impingiram na escola durantes as aulas de Língua Portuguesa. Mas raramente procuramos perceber por que razão há outras visões da tão aclamada figura. Limitamo-nos a condenar a suposta ignorância de quem crítica, sem perceber que, de facto, os ignorantes somos nós.

O Pde. António Vieira, enquanto jesuíta, defendia os interesses económicos da C.ª de Jesus que estavam profundamente associados à manutenção da escravatura dos negros em terras brasileiras. Vieira, bem ao jeito da eclésia portuguesa (e não só) da sua época não separava educação da aculturação cultural católica e, sem causar estranheza, encontrou no binómio catequese/escravatura argumentos teológicos que sustentavam o “direito” dos negros à escravidão.

Dizem-me, com frequência, que Vieira, apesar de um grande humanista, era um homem da sua época, como que a justificar os seus pecados. Sem dúvida, mas havia outros homens da sua (mesma) época que deram contributos no sentido contrário aos de Vieira. Um desses foi Galileu que, ao desafiar as ideias instalada de Aristóteles que sustentavam a defesa da escravatura por S. Tomás de Aquino, pôs em causa não só a organização dos corpos celestes, mas também das sociedades humanas. Vieira nasceu em 1608 e faleceu em 1697. Galileu nasceu em 1564 e morreu em 1642. O primeiro talvez fosse um homem da sua época (como o foram tantos outros). o segundo foi um homem à frente da sua época. O meu herói é o segundo.

Deixo uma ligação para um artigo de dois académicos brasileiros que têm outra leitura da história (e das estórias) do Pde. António Vieira.

Recomendo leitura completa do documento, mas podemos começar com duas ou três citações:


(…) a gente preta tirada das brenhas da sua Ethyopia, e passada ao Brazil, conhecera bem quanto deve a Deus (…), por este que pode parecer desterro, captiveiro, e desgraça, e não é senão um milagre, e grande milagre!” (in Décimo Quarto Sermão do Rosário)

Em um engenho sois imitadores de Christo crucificado, (…) porque padecido em um modo muito similhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. (…) A paixão de Christo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e taes são as vossas noites e os vossos dias. Christo despido, e vós despidos: Christo sem comer, e vós famintos: Christo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes affrontosos, de tudo isso se compõe a vossa imitação, que se fôr acompanhada de paciencia tambem tera merecimento de martyrio” (in Décimo Quarto Sermão do Rosário)

(…) se dilata mais com os escravos e os anima a supportarem o da sua fortuna com toda a magestade de razões. (…) e logo ajunta as razões dignas de se darem aos mais nobres e generosos espiritos. Primeira: porque a gloria da paciencia é padecer sem culpa (…) Segunda: porque essa é a graça com que os homens se fazem mais aceitos a Deus (…). Terceira, e verdadeiramente estupenda: porque n’esse estado em que Deus vos poz, é a vossa vocação similhante á de seu Filho, o qual padeceu por nós, deixando-vos o exemplo, que haveis de imitar. (…)  (in Vigesimo Setimo Sermão do Rosario)

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