Seleção sexual

Read this post in english.

Seleção Sexual é uma expressão cunhada por Charles Darwin para se referir às características de especiação determinadas pelo apreço sexual dos membros de um dos sexos biológicos da espécie. Estas características são frequentemente exuberantes, excessivas e concentradas nos machos da espécie. De facto, muitas das características de especiação desenvolvidas por este tipo particular de seleção não favorecem a sobrevivência individual e esta é a principal razão pela qual se concentram nos indivíduos do sexo masculino.

Uma das espécies mais conhecidas devido a este tipo de especiação é o pavão indiano (Pavo cristatus). O macho da espécie tem uma abundante e exuberante cauda plumosa, penas de um vivido azul cobalto que lhe cobrem parte do dorso, peito e pescoço e penas de uma laranja radioso nas pontas das asas.

Toda esta exuberância e exibicionismo fazem do pavão macho um alvo fácil para os predadores. Por outro lado, a fêmea da espécie tem uma cauda curta e discreta e o corpo coberto por penas de um cinzento pouco interessante, que lhes permite passar despercebidas no seu habitat e, aparentemente, lidam bem com a situação.

Encontram-se inúmeros exemplos idênticos a este entre as aves. As aves do paraíso, por exemplo, são um grupo em que, sem qualquer exceção, os machos exibem características de especiação por via da seleção sexual. No entanto, estas característica também podem ser encontradas em alguns mamíferos. A juba do leão (Panthera leo) macho é disso um exemplo, à semelhança das cores brilhantes exibidas pelos mandris africanos (Mandrillus sphinx), também conhecido por babuínos. Existem, também, diversas espécies de peixes que exibem características de especiação resultantes da seleção natural . Os machos guppies (Poecillia reticulata) ou beta (Betta splendens) são dois exemplos bem conhecidos dos amantes da aquariofilia.

As moscas do género Richardia vivem na floresta amazónica e constituem um dos mais surpreendentes e excêntricos casos de seleção sexual. Estas moscas exibem duas hastes na região da cabeça onde se deveriam encontrar os olhos, sendo que estes se encontram nas pontas destas bizarras projeções.

David Attenborough explica como o macho das moscas do género Richardia produz as hastes que sustentam os seus olhos

Coloca-se, então, a pergunta: Quais os mecanismos de seleção sexual e por que razão as características desenvolvidas através deste tipo de seleção se encontram, quase exclusivamente, nos machos das espécies?

Primeiro é preciso compreender que, de um modo geral, estas características não aumentam as hipóteses de sobrevivência individual. A plumosa cauda do pavão, os ornamentos excêntricos das aves do paraíso, a juba do leão, as exageradas e coloridas causas dos guppies e betas ou as hastes das moscas do género Richardia apenas sobreviveram aos processos seletivos da evolução natural porque as fêmeas preferem machos com estas características. De facto, em todas estas situações, o papel do macho na perpetuação da espécie resume-se à cópula. Tudo o que é pedido a estes machos é que eles atinjam a idade adulta, se tornem sexualmente maturos e capazes de se reproduzir. Na verdade, todos os machos das espécies anteriormente referidas só desenvolvem as exuberantes excentricidades depois de atingirem a maturidade sexual. Antes dessa idade, os indivíduos possuem um aspeto discreto, frequentemente idêntico às fêmeas, que facilita a sua sobrevivência até se tornarem adultos capazes de procriar. Ficam, então, prontos a serem alvo das escolhas caprichosas das fêmeas que são portadoras de dois tipos de genes: (1) os genes que produzem machos que se tornam exuberantes quando atingem a maturidade sexual e (2) os genes que produzem fêmeas que preferem machos sexualmente maturos e exuberantes para copular. Fica assim assegurada a passagem das excentricidades masculinas e das preferências femininas às gerações futuras.

Igualmente fascinante é o papel da seleção sexual entre humanos. Muitas são as vozes que afirmam que algumas das características étnicas, tal como o formato dos olhos, a cor do cabelo e dos olhos, a altura dos indivíduos, que estão na origem da imensa variedade humana, são, na verdade, características resultantes de mecanismos de seleção sexual. É claro que a cultura, e não apenas a genética, teve um papel crucial no desenvolvimento das sociedades humanas. Porém, a seleção continua a ser sexual, no sentido que, dependendo da região do globo e do grupo ético que aí habita, os genes e a cultura juntaram-se numa dança evolutiva única, capaz de exprimir uma enorme diversidade da beleza humana – e isto é simplesmente maravilhoso.

2 comments

  1. Viva Orlando,
    Grato por este teu post sobre um dos meus temas favoritos na biologia – entre tantos outros igualmente fascinantes! Aproveito para partilhar um livro e autor que, não sendo biólogo, levanta questões muito interessantes e provocadoras que estão ligadas com este tema:
    Survival of the beautiful – David Rothenberg (2011) http://www.survivalofthebeautiful.com
    Ele promoveu um encontro na NYU em 2012 cujos videos estão disponíveis em:
    https://vimeo.com/channels/survivalofthebeautiful
    Partilho também dois posts dum outro autor norte-americano que são também (e incluem referência ao Rothenberg):
    Artigos Tam Hunt – A science of beauty (2011):
    Is it art? http://www.independent.com/news/2011/jul/09/it-art-science-beauty-part-i/
    A Science of Beauty, Part II: Aesthetic Appreciation Exists Throughout Nature
    http://www.independent.com/news/2011/jul/31/science-beauty-part-ii/
    Abraço,
    Álvaro

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s