Se está frio é porque não está calor

“Há algo de podre no Reino da Dinamarca!”, disse Shakespeare no início do século XVII, quando teclava Hamlet no seu Macbook (Bom?!, Talvez não tenha sido exatamente assim! Mas isso não interessa para nada!!).

Passados 400 anos, parece que as podridões dinamarquesas foram devidamente atendidas e remediadas, com a Dinamarca a liderar o ranking dos países menos corruptos do mundo.

Há que perdoar a Shakespeare a caducidade da expressão. Porém, se Shakespeare tivesse a capacidade de prever o futuro, poderia ter escrito qualquer coisa como: “Há algo de podre na República dos EUA!” É certo que ainda faltariam quase dois séculos para a fundação da nação e quatro séculos para a eleição de Trump, mas ninguém poderia negar que teria sido uma (pre)visão do caraças, ainda que óbvia, nos nossos dias.

É claro que todos nós já nos habituámos à trumpalhices do presidente dos EUA, mas ainda ontem, Trump, face à onda de frio que se faz sentir em algumas regiões do país a que preside, escreveu o seguinte Tweet:

Continue reading “Se está frio é porque não está calor”

A adúltera, o juiz, o advogado e o presidente da República

O Conselho Superior de Magistratura considera que houve infração disciplinar e chumbou o de arquivamento do processo disciplinar contra o juiz Neto Moura. Para os mais esquecidos, Neto Moura é o juiz desembargador do Tribunal da Relação do Porto que, em outubro de 2017, redigiu um acórdão que atenuou a pena aplicada a um homem que agrediu a sua mulher de forma brutal e violenta, pelo facto de esta ter relações extraconjugais, ou, nas palavras do juiz, ser adúltera. No acórdão, Neto Moura sustenta-se na bíblia e no código penal de 1886, para justificar a sua posição (ambos, documentos contemporâneos e fiáveis, que, como bem sabemos, respeitam os Direitos Humanos e, em particular, os Direitos das Mulheres!) Saliente-se que, desde 1974, que o adultério deixou de ser considerado atenuante para crimes conjugais – a culpa é do 25 de Abril, claro. No acórdão (disponível aqui) pode ler-se:

“há sociedades em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte”, e que o adultério da mulher é “um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem”.

Continue reading “A adúltera, o juiz, o advogado e o presidente da República”