A morte de Klaus

A cerca de dez dias do Natal de 1938, Klaus cai doente. Não consegue articular palavra. Além da tosse, apenas um ocasional gemido rouco foge da sua boca. O seu olhar perdido no vazio denuncia o torpor provocado pela febre escaldante. Mesmo para um leigo, o diagnóstico adivinha-se fácil. O asfixiante inchaço do pescoço, os véus brancos que lhe cobrem as amígdalas e a recusa dos alimentos devido às dores e dificuldades em engolir, são sintomas claros de uma difteria. Existem tratamentos e medicamentos que lhe podem salvar a vida. Uma traqueotomia poderia levar novamente o ar aos seus pulmões. Mas, para isso, Klaus precisa de intervenção médica.

Albert, avô de Klaus, tenta convencer o seu filho a chamar um médico, mas este rejeita a sua sugestão. O divórcio que Albert impôs a Mileva, sua mãe, deixou-lhe um ressentimento capaz de alimentar o prazer mesquinho em o contrariar. Mas, esta está longe de ser a razão por que o pai de Klaus lhe recusa tratamento médico.

Mary Baker – que no final do século XIX na costa este dos estados unidos fundou a Igreja do Cristo Cientista – afirma nos seus escritos que: hoje, como no tempo de Jesus, a cura se faz pela intervenção do Príncipe Divino. Nenhum tratamento médico é necessário ou recomendado. Apenas a oração, através da dissipação da doença e do pecado da consciência humana, pode curar.

Apesar da insistência de Albert, os pais de Klaus recusam pedir a ajuda de um médico. Limitam-se a rezar. Rezam desesperadamente, sem descanso, em busca da intervenção do Príncipe Divino, que não chega.

No dia cinco de janeiro de 1939, a três meses de completar o seu sexto aniversário e sem um médico à cabeceira, morre, de ignorância, estupidez e crendice paterna, Klaus Martin Einstein.

Se está frio é porque não está calor

“Há algo de podre no Reino da Dinamarca!”, disse Shakespeare no início do século XVII, quando teclava Hamlet no seu Macbook (Bom?!, Talvez não tenha sido exatamente assim! Mas isso não interessa para nada!!).

Passados 400 anos, parece que as podridões dinamarquesas foram devidamente atendidas e remediadas, com a Dinamarca a liderar o ranking dos países menos corruptos do mundo.

Há que perdoar a Shakespeare a caducidade da expressão. Porém, se Shakespeare tivesse a capacidade de prever o futuro, poderia ter escrito qualquer coisa como: “Há algo de podre na República dos EUA!” É certo que ainda faltariam quase dois séculos para a fundação da nação e quatro séculos para a eleição de Trump, mas ninguém poderia negar que teria sido uma (pre)visão do caraças, ainda que óbvia, nos nossos dias.

É claro que todos nós já nos habituámos à trumpalhices do presidente dos EUA, mas ainda ontem, Trump, face à onda de frio que se faz sentir em algumas regiões do país a que preside, escreveu o seguinte Tweet:

Continue reading “Se está frio é porque não está calor”

A adúltera, o juiz, o advogado e o presidente da República

O Conselho Superior de Magistratura considera que houve infração disciplinar e chumbou o de arquivamento do processo disciplinar contra o juiz Neto Moura. Para os mais esquecidos, Neto Moura é o juiz desembargador do Tribunal da Relação do Porto que, em outubro de 2017, redigiu um acórdão que atenuou a pena aplicada a um homem que agrediu a sua mulher de forma brutal e violenta, pelo facto de esta ter relações extraconjugais, ou, nas palavras do juiz, ser adúltera. No acórdão, Neto Moura sustenta-se na bíblia e no código penal de 1886, para justificar a sua posição (ambos, documentos contemporâneos e fiáveis, que, como bem sabemos, respeitam os Direitos Humanos e, em particular, os Direitos das Mulheres!) Saliente-se que, desde 1974, que o adultério deixou de ser considerado atenuante para crimes conjugais – a culpa é do 25 de Abril, claro. No acórdão (disponível aqui) pode ler-se:

“há sociedades em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte”, e que o adultério da mulher é “um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem”.

Continue reading “A adúltera, o juiz, o advogado e o presidente da República”