¿Quieres ser mi amante?

Morreu Camilo Sesto e fiquei triste. Também pela morte do cantor aos 72 anos, mas sobretudo pelas pessoas que me são queridas e que perderam a memória por incapacitação tecnológica.

Estava-se em 1974, ano de muitas músicas e alegrias para os Portugueses, quando se ouvia o ¿Quieres ser mi amante? na rádio. A minha tia e a minha mãe ouviam a música repetidamente, umas vezes na rádio, outras no gira-discos portátil SILVANO RADIO PHONO CASSETE – THREE in ONE 717, que o meu pai tinha trazido de Manaus, a um preço mais em conta. Além de tocar discos a 45 e 33 rpm, tinha também um tocador/gravador de cassetes e um rádio com FM, MW e SW. Quando fechado, com o braço da agulha do gira-discos bem preso para não se estragar, assumia o formato de uma elegante pasta, com o mostrador das bandas de rádio a vêr-se. No topo, junto à pega, do lado esquerdo os botões de tuning e volume permitiam controlar as estações de rádio captadas e o som do aparelho. À esquerda dos botões, a ponta de uma antena articulada que podia ser esticada e orientada, caso a receção não fosse muito boa. Particularmente útil, para uma melhor captação das emissões FM. Do outro lado, por baixo dos botões que permitiam por o tocador de cassetes a funcionar, duas entradas L/R para um aparelho auxiliar e duas entradas L/R para o microfone – tudo stereo e à séria! Na tampa, à direta, as ranhuras por onde saía o som da coluna posta por detrás do leitor de cassetes. Os discos, claro está, só podiam ser escutados com o aparelho aberto, seguramente pousado numa superfície plana. Para ouvir cassetes, podia-se manter o aparelho aberto ou então colocar a cassete a tocar e fechar o aparelho, que se transformava numa premonição desmedida de um iPod. Na parte de trás do aparelho, dois compartimentos: num podia-se guardar o cabo de cobre para ligação do mecanismo à rede elétrica; o outro permitia colocar oito pilhas de tamanho D (as maiores, cilindricas) que apenas com o rádio tinham uma duração mais ou menos aceitável, mas que os motores do gira-discos ou do tocador de cassetes esgotavam rapidamente, deixando-nos sem música durante o almoço de pic-nic, numa das Gafanhas perto Ílhavo. Quando não estavam a uso, para evitar derrames que comprometeriam seriamente a usabilidade do SILVANO, as pilhas eram religiosamente removidas do aparelho.

Eu, com os meus sete anos não estava autorizado a mexer no SILVANO. Demasiado precioso, para que os gestos desajeitados de uma criança o avariassem. Mais tarde, já mais crescido, foi-me permitido gravar lá algumas cassetes, quer a partir de músicas passadas na rádio ou dos singles e LPs que alguns amigos me emprestavam, que depois ouvia nos auscultadores fanhosos do meu toca-cassetes branco que se tornou cinzento-riscado devido ao uso. E que cool me sentia ao caminhar pelas ruas calcetadas de Queluz ou pelos caminhos de terra batida de Veiros com os auscultadores roufenhos nos ouvidos.

E foi no SILVANO que, repetidas vezes, ouvi o ¿Quieres ser mi amante? do Camilo Sesto. Umas vezes na rádio, outras no single que alguém havia comprado e que ainda deve repousar algures em casa da minha mãe. A minha tia e a minha mãe nas lides domésticas ou na máquina de costura – que ajudava a pagar as despesas da casa e os estudos dos filhos; a música a tocar em fundo, na coluna nasalada do SILVANO.

Tinha vantagens o SILVANO! O som não tinha, certamente, a qualidade da Harmon Kardon que tenho na sala da minha casa, mas a minha mãe e a minha tia sabiam usar o aparelho e podiam, sempre que queriam, ouvir o Camilo Sesto, o António Calvário ou a Simone de Oliveira. Na altura achava-os pirosos e antiquados; agora fazem parte de algumas das playlists que guardo na minha biblioteca Apple Music.

Sem bluetooth nem emparelhamentos, o som era rouco e os discos de vinil estrelavam mais ovos que a minha avó na cozinha. Mas era fácil pôr o disco, acertar as rotações e deixar tocar a música. Mais tarde, já eu estava autorizado a mexer no precioso SILVANO, para não estarem sempre a mudar os singles, quando sobrava algum dinheiro, compravam uma cassete de ferro (as de crómio eram mais caras e não valiam a diferença) e pediam-me que gravasse algumas músicas dos discos ou da rádio. Assim, podiam ouvir 30 minutos de seguida sem interrupções. Quando se fartavam, gravavam, por cima das músicas, que haviam tocado até à exaustão, até que a os estados quânticos da banda magnética se revoltassem e passassem a tocar as novas músicas com um murmúrio das antigas por detrás.

Fiquei triste e nostálgico, por saber que Camilo Sesto faleceu. Triste e nostálgico porque faleceu um cantor, mas também porque passaram 45 anos desde que Camilo Sesto lançou o ¿Quieres ser mi amante?; certamente mais anos do que aqueles que me serão ainda permitidos viver. Triste e nostálgico, porque a minha avó já não frita ovos na cozinha e porque a minha mãe e a minha tia, mulheres de garra a quem um regime salazarento negou o direito a uma escolarização eficaz, já não podem ouvir o Camilo Sesto. O SILVANO há muito que sucumbiu ao uso e elas, reféns da CMTV, da TVI e da ignorância tecnológica, não sabem como escolher o que querem ver ou ouvir, numa sociedade onde tudo se encontra à distância de um clique.

Talvez tenham sorte e hoje, num dos telejornais dos canais portugueses, no intervalo entre as notícias de incêndios, romarias bafientas, campanhas partidárias e futebol inebriante, se ouça novamente a voz jovem do Camilo Sesto, num vídeo de baixa resolução, a cantar

[…]
Sueños que son amor…
Son sueños que son dolor.
Yo necesito saber si quieres ser mi amante.
[…]

A morte de Klaus

A cerca de dez dias do Natal de 1938, Klaus cai doente. Não consegue articular palavra. Além da tosse, apenas um ocasional gemido rouco foge da sua boca. O seu olhar perdido no vazio denuncia o torpor provocado pela febre escaldante. Mesmo para um leigo, o diagnóstico adivinha-se fácil. O asfixiante inchaço do pescoço, os véus brancos que lhe cobrem as amígdalas e a recusa dos alimentos devido às dores e dificuldades em engolir, são sintomas claros de uma difteria. Existem tratamentos e medicamentos que lhe podem salvar a vida. Uma traqueotomia poderia levar novamente o ar aos seus pulmões. Mas, para isso, Klaus precisa de intervenção médica.

Albert, avô de Klaus, tenta convencer o seu filho a chamar um médico, mas este rejeita a sua sugestão. O divórcio que Albert impôs a Mileva, sua mãe, deixou-lhe um ressentimento capaz de alimentar o prazer mesquinho em o contrariar. Mas, esta está longe de ser a razão por que o pai de Klaus lhe recusa tratamento médico.

Mary Baker – que no final do século XIX na costa este dos estados unidos fundou a Igreja do Cristo Cientista – afirma nos seus escritos que: hoje, como no tempo de Jesus, a cura se faz pela intervenção do Príncipe Divino. Nenhum tratamento médico é necessário ou recomendado. Apenas a oração, através da dissipação da doença e do pecado da consciência humana, pode curar.

Apesar da insistência de Albert, os pais de Klaus recusam pedir a ajuda de um médico. Limitam-se a rezar. Rezam desesperadamente, sem descanso, em busca da intervenção do Príncipe Divino, que não chega.

No dia cinco de janeiro de 1939, a três meses de completar o seu sexto aniversário e sem um médico à cabeceira, morre, de ignorância, estupidez e crendice paterna, Klaus Martin Einstein.

Se está frio é porque não está calor

“Há algo de podre no Reino da Dinamarca!”, disse Shakespeare no início do século XVII, quando teclava Hamlet no seu Macbook (Bom?!, Talvez não tenha sido exatamente assim! Mas isso não interessa para nada!!).

Passados 400 anos, parece que as podridões dinamarquesas foram devidamente atendidas e remediadas, com a Dinamarca a liderar o ranking dos países menos corruptos do mundo.

Há que perdoar a Shakespeare a caducidade da expressão. Porém, se Shakespeare tivesse a capacidade de prever o futuro, poderia ter escrito qualquer coisa como: “Há algo de podre na República dos EUA!” É certo que ainda faltariam quase dois séculos para a fundação da nação e quatro séculos para a eleição de Trump, mas ninguém poderia negar que teria sido uma (pre)visão do caraças, ainda que óbvia, nos nossos dias.

É claro que todos nós já nos habituámos à trumpalhices do presidente dos EUA, mas ainda ontem, Trump, face à onda de frio que se faz sentir em algumas regiões do país a que preside, escreveu o seguinte Tweet:

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A adúltera, o juiz, o advogado e o presidente da República

O Conselho Superior de Magistratura considera que houve infração disciplinar e chumbou o de arquivamento do processo disciplinar contra o juiz Neto Moura. Para os mais esquecidos, Neto Moura é o juiz desembargador do Tribunal da Relação do Porto que, em outubro de 2017, redigiu um acórdão que atenuou a pena aplicada a um homem que agrediu a sua mulher de forma brutal e violenta, pelo facto de esta ter relações extraconjugais, ou, nas palavras do juiz, ser adúltera. No acórdão, Neto Moura sustenta-se na bíblia e no código penal de 1886, para justificar a sua posição (ambos, documentos contemporâneos e fiáveis, que, como bem sabemos, respeitam os Direitos Humanos e, em particular, os Direitos das Mulheres!) Saliente-se que, desde 1974, que o adultério deixou de ser considerado atenuante para crimes conjugais – a culpa é do 25 de Abril, claro. No acórdão (disponível aqui) pode ler-se:

“há sociedades em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte”, e que o adultério da mulher é “um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem”.

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